Open Banking e o Setor Financeiro no Brasil

5/29/2020

EUGENE KIRZHNER

Como exploramos em nosso estudo anterior do setor financeiro na América Latina, o Brasil representa um mercado importante e lucrativo. Entre 2018-2019, Banco do Brasil, Bradesco, Santander, Caixa, e Itaú, que representam quase 80% do mercado doméstico, apresentaram um ROE médio de 18,3%. Vários fatores impulsionam a criação de valor atual bem como as expectativas futuras implícitas nas ações dos bancos brasileiros: altos spreads e relativamente pouca concorrência, além de uma grande população sem conta bancária e, portanto, um mercado relevante e sub penetrado. 

Ainda este ano, a regulamentação do open banking começará a entrar em vigor no Brasil. O open banking criará oportunidades para as instituições financeiras atuais que puderem mostrar flexibilidade e se adaptar rapidamente, assim como para fintechs e outras startups financeiras. Neste artigo, exploramos como os grandes bancos brasileiros podem continuar a criar valor na era do open banking.

Então, o que é open banking? Para os nossos propósitos, o open banking é um sistema bancário em que o local de controle das informações financeiras muda das instituições financeiras para o cliente. Isso significa que, com a permissão do cliente, todas e quaisquer instituições financeiras no país podem acessar os dados financeiros de um cliente em potencial instantaneamente e com facilidade. Isso facilita a transferência de serviços para os concorrentes, se seus produtos forem mais competitivos e atraentes para os clientes.

Muitos bancos grandes enxergam o open banking apenas por meio da perspectiva de transformação digital. Em sua essência, o open banking é sem dúvida baseado no desenvolvimento e uso de novas tecnologias digitais. Entretanto, ele deve ser visto como uma mudança de paradigma mais ampla, que precisa de uma reavaliação completa da estratégia principal e das operações comerciais. As maneiras pelas quais os atores do setor financeiro brasileiro reagem e se adaptam às novas realidades trazidas pelo open banking determinarão sua aptidão à criação de valor nos próximos anos. 

Dado que o open banking transformará o cenário do setor financeiro brasileiro, o que os bancos brasileiros podem fazer? Primeiro, devem articular sua estratégia de maneira rápida e direta e se concentrar em melhorar suas operações chave. O open banking leva ao aumento da concorrência e do número de novos entrantes, que poderão se especializar e fornecer uma excelente oferta para uma linha de serviços específica, a custos semelhantes ou mais baixos que os oferecidos atualmente. Isso significa que os bancos brasileiros que atualmente não estão bem posicionados numa oferta de um determinado serviço, devem reavaliar seu portfólio, eventualmente abandonando-o ou formando parcerias com empresas que possam fornecê-lo de forma eficiente. Criar valor também significa descartar ou reaproveitar algo com retorno insatisfatório.

Em algumas partes da África, como no Quênia, as parcerias entre empresas do setor financeiro e de telefonia móvel levaram quase 85% da população a utilizar pagamentos móveis, algo que aponta para uma oportunidade muito maior de oferta de serviços e produtos na esfera digital. Imagine, por exemplo, se o terceiro maior banco no Brasil fizesse uma parceria com a segunda maior operadora de celular para fornecer a todos os clientes da operadora uma plataforma integrada para lidar com pagamentos e oferecer promoções exclusivas de fidelidade entre os dois fornecedores. Aqueles que pagassem suas faturas de celular por meio do banco parceiro receberiam recompensas do banco, enquanto a operadora seria vista como a melhor alternativa para aqueles que desejam explorar toda a linha de produtos do banco.

Segundo, os bancos devem abordar questões sistemáticas que causam ineficiência operacional e insatisfação do cliente. Com o open banking, os clientes terão a oportunidade de deixar os bancos que prestam serviços abaixo do ideal ou cujos processos são vistos como caros pelo cliente. Muitos bancos possuem atualmente infraestruturas de TI abaixo do padrão e que precisam ser atualizadas. Além disso, os grandes bancos carecem de muitas das qualidades centradas no cliente, as quais as fintechs têm e que muitos acham atraentes. As atitudes em relação à alocação de capital terão que mudar para garantir que os investimentos não sejam meros modismos, mas sim que revelem potencial de valor, potencializem a estratégia corporativa e criem as condições para a criação de valor no futuro. 

Terceiro, os bancos podem aproveitar os dados bancários que estarão disponíveis no open banking para obter mais informações sobre os clientes dos concorrentes e, assim, criar produtos e serviços mais personalizados. Como o open banking provavelmente aumentará o número médio de instituições financeiras com as quais os clientes têm relacionamentos, os bancos podem usar esses dados para melhorar suas próprias ofertas e atrair novos clientes insatisfeitos com a instituição atual.  

Quarto, os bancos brasileiros precisam concentrar esforços adicionais na atração da população sem conta bancária, representando aproximadamente 45 milhões de pessoas no início de 2020. Reconhecer as muitas mudanças que o coronavírus causou em relação às pessoas sem conta bancária pode abrir oportunidades para os bancos oferecerem a essa população uma porta de entrada para serviços formais. Por exemplo, o coronavírus levou milhões de brasileiros a obter um CPF e a abrir contas para receber o auxílio emergencial. Alguns desses brasileiros, sem dúvida, fecharão suas contas imediatamente após receber o dinheiro, mas como agora possuem um registro financeiro que estará disponível para análise, podem surgir outras oportunidades para esse segmento da população. Outros manterão sua conta e estarão sujeitos a um serviço personalizado que atenda às suas necessidades financeiras. 

Finalmente, os bancos podem usar a ameaça do open banking como uma oportunidade para melhorar sua governança corporativa. Na medida em que as margens são reduzidas devido ao aumento da concorrência e à perda de participação de mercado, os bancos mais confiáveis pelos consumidores vencerão a competição. Dentre as mudanças que permitirão aos bancos brasileiros competir de forma sustentável no longo prazo estão: o foco no alinhamento entre a administração e acionistas, a adoção de medidas de desempenho adequadas nos incentivos, a integridade e a ética da administração e a implementação de incentivos com base em valor. 

Com a integração de todas essas medidas, os bancos podem incentivar um equilíbrio saudável entre a assunção de riscos a longo e curto prazos e valorizar o crescimento rentável. Além disso, os bancos terão a oportunidade de explicar ao público seu papel central na recuperação pós-pandemia e demonstrar sua responsabilidade social. 

A chegada do open banking trará grandes mudanças no setor financeiro do Brasil. Os grandes bancos podem explorar essa nova realidade e ficarem mais fortes se se concentrarem nas principais atividades – aquelas criadoras de valor –, personalizando o serviço pela utilização dos novos dados fornecidos pelo open banking, considerando parcerias, atingindo os grupos demográficos atualmente sem conta bancária e desenvolvendo estratégias com base em valor.



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